Este guia responde a uma pergunta que chega à GVM em três versões: “existe seguro para startups digitais?”, “que seguro uma software house precisa?” e “meu cliente exige seguro no contrato, qual eu contrato?”. A resposta é a mesma nas três. São sete seguros, e o que muda entre uma startup de dez pessoas e uma scale-up de duzentas não é a lista — é a ordem e o tamanho de cada um.
Antes de começar, uma distinção. Para a lei, startup é uma categoria definida: o Marco Legal das Startups (Lei Complementar 182/2021, art. 4º) enquadra organizações nascentes ou em operação recente, com atuação baseada em inovação aplicada ao modelo de negócio ou ao produto, receita bruta de até R$ 16 milhões no ano anterior e até dez anos de inscrição no CNPJ. Para a seguradora, esse enquadramento é irrelevante. O que ela avalia é o que você entrega, para quem, com que contrato, tratando quais dados e com quem no cap table. Uma software house de quinze anos e uma startup seed com o mesmo produto e o mesmo cliente recebem a mesma análise. Por isso este artigo trata as duas juntas.
O que ele não faz é repetir dois conteúdos que já existem no site. O programa completo do setor, por tipo de empresa, está em seguros para empresas de tecnologia. A leitura das cláusulas de responsabilidade do contrato com o cliente — teto, indenidade, SLA, dados, propriedade intelectual — está em seguro para empresa de software: o risco está no contrato. Aqui o recorte é outro: qual seguro entra em qual estágio, o que dispara cada contratação e o que move o preço.
Por que a ordem importa: o seguro certo no estágio errado é dinheiro parado
Seguro empresarial é um orçamento pequeno com muitas linhas. Em startup, esse orçamento compete com folha, infraestrutura e aquisição de cliente. Gastar na linha errada tem dois custos: o prêmio pago por um risco que ainda não existe e a lacuna deixada no risco que já existe.
Dois casos que se repetem. Uma startup pré-seed contrata D&O porque leu que investidor exige — mas não tem investidor, conselho nem sócio externo. O prêmio protege uma exposição quase nula enquanto o primeiro contrato B2B, com cláusula de indenização, roda sem E&O. No sentido oposto, uma software house com dez anos e um contrato enterprise assinado adia o E&O “para quando crescer”. A exposição contratual dela já supera o caixa há anos.
Três critérios definem a ordem, nesta sequência:
- O que alguém exige agora. Cliente, investidor, locador, edital. Exigência contratual tem prazo e trava assinatura; é a primeira prioridade.
- Que evento quebraria a empresa hoje. Para um SaaS com dados de milhares de usuários, um incidente de segurança. Para uma consultoria com três clientes grandes, uma reclamação por erro na recomendação. Para uma empresa de hardware, o produto que falha em campo.
- O que é barato de manter e caro de recuperar. E&O, cyber e D&O operam à base de reclamações: respondem pelo que é reclamado na vigência, desde que o fato seja posterior à data de retroatividade. Quem contrata cedo e mantém sem interrupção compra um passado longo. Quem contrata tarde deixa fora o código que já está em produção. O mecanismo está em retroatividade no seguro de RC.
Equipamentos, patrimonial e vida em grupo não têm esse componente de passado. Eles podem esperar o fato gerador — o servidor comprado, o escritório alugado, o décimo funcionário — sem penalidade.
Os sete seguros e o que cada um resolve
1. RC profissional de tecnologia (E&O): o erro no software e a cláusula do contrato
O E&O de tecnologia cobre o prejuízo financeiro que uma falha do seu serviço causa ao cliente: o bug que corrompe dados, a integração que processa pagamentos em duplicidade, a migração que para a operação, a recomendação de arquitetura que saiu cara. Não há dano físico envolvido, e é exatamente por isso que a RC geral comum não responde — ela foi desenhada para dano material e corporal.
As buscas chegam com nomes diferentes: seguro para empresa de programadores, seguro para softwares, seguro para consultorias de tecnologia, seguro para empresa de processamento de dados. O produto é um só. O que muda é o clausulado — uma consultoria precisa de cobertura ampla para recomendação; uma software house, para falha do produto entregue; um processador de dados, para a responsabilidade como operador sob a LGPD.
Quem exige: o cliente B2B, na cláusula de seguros do MSA. Bancos, operadoras de saúde, indústrias e governo pedem quase sempre; empresas médias, cada vez mais.
O que não cobre: multa de SLA (obrigação contratual assumida voluntariamente), o custo de refazer o seu próprio trabalho, dolo e — salvo extensão — violação de propriedade intelectual. As exceções do teto de responsabilidade, que é onde o E&O mais é acionado, estão detalhadas no artigo sobre o contrato.
2. Cyber: incidente, LGPD, ransomware e interrupção
O seguro cyber responde pelo evento de segurança — de fora (ataque) ou de dentro (erro de configuração, credencial vazada). Ele paga a resposta ao incidente (perícia, contenção, jurídico), a notificação a titulares e à ANPD, a defesa e a indenização por reclamações de terceiros, a interrupção do faturamento durante a parada e, quando contratada, a extorsão.
Dois marcos legais dimensionam esse risco. A LGPD (Lei 13.709/2018, art. 52) prevê, entre as sanções, multa simples de até 2% do faturamento da pessoa jurídica no Brasil no último exercício, excluídos os tributos, limitada a R$ 50 milhões por infração — além de advertência, publicização da infração, bloqueio e eliminação dos dados e suspensão da atividade de tratamento. A Resolução CD/ANPD nº 15/2024 fixou o prazo: incidente com risco ou dano relevante deve ser comunicado à ANPD em três dias úteis, contados de quando o controlador soube que dados pessoais foram afetados, com complementação em até vinte dias úteis; para agentes de pequeno porte, os prazos contam em dobro. Três dias úteis é pouco para quem nunca ensaiou. É por isso que a cobertura mais valiosa do cyber, na prática, é a equipe de resposta que a apólice coloca do seu lado na primeira hora.
Sobre volume: a ANPD registrou 362 comunicações de incidentes em 2025 e 1.508 acumuladas entre 2021 e 2025, segundo o seu Relatório Integrado de Gestão 2025. Nos dados agregados divulgados pela autoridade, os tipos mais frequentes são roubo de credenciais e engenharia social, seguidos de ransomware e acesso não autorizado. São só os incidentes comunicados; o universo real é maior.
Quem exige: cliente B2B (junto do E&O), investidor em due diligence e, para apps com usuário final, a própria base — cada titular é um reclamante em potencial.
O que não cobre: dano a equipamento físico (seguro de equipamentos), vulnerabilidade conhecida e não corrigida, incidente anterior à vigência, multa quando a lei veda a transferência. A prevenção que a seguradora vai perguntar no questionário está no artigo sobre ransomware.
3. D&O: por que investidor e conselho exigem a partir da rodada
O D&O não protege a empresa; protege o patrimônio pessoal de quem a administra — fundadores no cargo de diretor, conselheiros, administradores de fato — quando uma decisão de gestão é questionada. Paga a defesa e a indenização por reclamações de sócios e investidores (uma informação incorreta no data room da rodada), ações trabalhistas dirigidas ao gestor, processos de reguladores e redirecionamento de dívida tributária.
Por que a exigência nasce na rodada e não antes: até a série A, sócios e administradores costumam ser as mesmas pessoas. Quem reclamaria contra quem? Com o investidor entram um terceiro com direitos, um acordo de acionistas com deveres de informação e, quase sempre, um conselheiro indicado pelo fundo — que responde pessoalmente pelas decisões do colegiado e não aceita a cadeira sem a apólice. O fundo, ao exigir D&O no term sheet, está protegendo o próprio representante.
Antes disso, o D&O faz sentido em duas situações: fintech, healthtech ou qualquer operação regulada, em que a exposição a processo administrativo existe desde o dia um; e empresa com sócio externo relevante, mesmo sem conselho formal.
O que não cobre: dolo e fraude comprovados, fatos já conhecidos na contratação, a obrigação contratual da empresa e o erro técnico do serviço — que é E&O.
4. Equipamentos de informática: notebooks, servidores e eletrônicos
A pergunta “quais são as melhores apólices para proteger equipamentos eletrônicos de uma empresa de tecnologia” não tem uma resposta; tem três, e a escolha depende de onde o equipamento fica.
| Apólice | O que protege | Coberturas típicas | Limite prático |
|---|---|---|---|
| Equipamentos de informática (Riscos Diversos, bens fixos) | Servidores, storage, rede, estações no endereço segurado | Dano elétrico, incêndio, roubo com vestígios, quebra acidental, reposição a valor de novo ou atual | Não cobre desgaste, defeito de fabricação em garantia nem os dados |
| Equipamentos portáteis (mesma família, modalidade móvel) | Notebooks, tablets, celulares que circulam — home office, cliente, viagem | Roubo e furto qualificado fora do endereço, queda, dano em trânsito, âmbito nacional ou mundial | Furto simples sem vestígios só quando contratado; equipamento do funcionário (BYOD) precisa ser declarado |
| Patrimonial empresarial | Imóvel, mobiliário, instalações, conteúdo | Incêndio, vendaval, roubo, vidros, responsabilidade do locatário, dano elétrico com sublimite | O sublimite de dano elétrico raramente alcança um parque de TI; não substitui a apólice de equipamentos |
Para uma startup cloud-native, sem servidor próprio, a resposta inteira costuma ser a segunda linha: o parque é uma frota de notebooks distribuída em home offices, e o sinistro típico é roubo em deslocamento. Para uma empresa de servidores, hospedagem ou processamento de dados, a primeira linha é central, com dano elétrico em limite alto e atenção a no-break e aterramento, que a seguradora vai perguntar.
Duas regras práticas. A apólice cobre o equipamento, não o que está nele — perda de dados é cyber. E a base é a relação de equipamentos com nota fiscal e valor declarado; o que não está na lista não está segurado. O simulador de seguro de equipamentos ajuda a estimar o valor em risco antes de cotar.
5. Vida em grupo e benefícios: retenção de time
O seguro de vida em grupo cobre morte e invalidez por acidente dos colaboradores, com assistências, a um custo por vida baixo. Em tecnologia, ele entra por dois caminhos. O primeiro é a convenção coletiva: algumas categorias preveem a contratação, e a empresa que não contrata assume o passivo. O segundo é o pacote de benefícios: numa disputa por desenvolvedor sênior, vida em grupo com capital digno é item esperado, e barato perto do que custa perder a pessoa.
Uma nota para a outra ponta da mesa. Para o profissional de tecnologia autônomo — o PJ que presta serviço para startups —, cinco coberturas resolvem quase tudo: E&O individual (o contrato do cliente pode exigir), cyber para pequeno porte quando há acesso a ambiente de produção, DIT para repor a renda em afastamento, vida individual com invalidez e equipamentos portáteis para o notebook. A escolha entre vida individual e em grupo depende de quem paga.
6. RC geral e patrimonial: escritório, coworking, eventos
A RC geral empresarial cobre dano corporal e material a terceiros na operação: a visita que se machuca no escritório, o dano ao imóvel alugado ou ao coworking, o meetup que a empresa organiza. Contratos de coworking e de locação frequentemente exigem RC com limite mínimo, e o de locação costuma exigir também o patrimonial com cláusula de responsabilidade do locatário. São apólices de prêmio pequeno, sem componente de retroatividade, e o gatilho para contratar é o contrato de locação ou o evento com público — não o estágio da empresa. Registre o que a RC geral não faz: ela não cobre o bug. Prejuízo financeiro do cliente é E&O.
7. Seguro garantia: quando o cliente é governo ou grande empresa exige garantia contratual
O seguro garantia substitui a caução em dinheiro e a fiança bancária quando o contratante exige garantia de execução. Para startup, importa por uma razão de caixa: caução imobiliza dinheiro que deveria estar em produto, e fiança consome limite bancário que empresa jovem não tem.
No setor público, a Lei 14.133/2021 organiza a regra. O art. 96 permite à Administração exigir garantia, prevista no edital, e dá ao contratado a escolha entre caução, seguro-garantia, fiança bancária e, desde a Lei 14.770/2023, título de capitalização. O art. 98 fixa o teto em 5% do valor inicial do contrato, majorável até 10% mediante justificativa de complexidade técnica e risco; em serviços contínuos com vigência superior a um ano, a base é o valor anual. O percentual de até 30% do art. 99 é para obras e serviços de engenharia de grande vulto — não é o seu caso. Um detalhe útil do art. 96, §3º: quando o contratado opta pelo seguro-garantia, o edital fixa prazo mínimo de um mês, contado da homologação, para apresentá-lo. É o tempo que a seguradora leva para analisar crédito, e startup sem balanço robusto deve começar a cotar no dia da homologação, não na véspera da assinatura.
No privado, grandes empresas pedem garantia de execução e, quando há adiantamento, garantia do valor adiantado. A mecânica do seguro garantia em licitações está detalhada em artigo próprio.
A ordem por estágio
Pré-seed e seed: o que o contrato do primeiro cliente exige
A regra é simples: o primeiro seguro é o que o primeiro contrato pede. Se o modelo é B2B e o cliente mandou um MSA, será o E&O — e a cláusula de seguros provavelmente pede cyber junto. Se o modelo é B2C e há dados pessoais de usuários desde o primeiro cadastro, é o cyber, e o E&O entra no primeiro contrato corporativo. Na prática, as seguradoras de tecnologia cotam os dois em conjunto, e contratar o par cedo tem um efeito que não se compra depois: fixa a data de retroatividade no início da história do código.
Limite: pelo maior contrato, não pelo faturamento. Uma startup com R$ 2 milhões de receita e um cliente que exige limite de R$ 5 milhões precisa dos R$ 5 milhões. Se for exagero, o momento de negociar é antes de assinar.
Equipamentos portáteis entram quando os notebooks são da empresa. Patrimonial e RC geral, quando há escritório alugado. D&O, só em operação regulada ou com sócio externo relevante. Garantia, só se estiver vendendo para governo.
Série A: D&O e cyber entram — ou crescem
A rodada muda três coisas. Entra o D&O, pelo motivo já dito: conselho, acordo de acionistas e o representante do fundo. O cyber é redimensionado, porque a base de dados cresceu e o investidor vai perguntar por limite, franquia e resposta a incidentes no due diligence. E o E&O sobe para acompanhar os contratos enterprise que a rodada foi levantada para fechar.
Entra também a vida em grupo, na virada em que o headcount cresce e a convenção coletiva passa a ser lida. A partir daqui, o programa vira um documento vivo: revisado a cada rodada, a cada contrato acima do limite atual e a cada mudança relevante no tipo de dado tratado.
Escala e internacionalização: programas, jurisdição, apólice local
Ao vender fora, o MSA vem sob lei estrangeira e pede limites em dólar ou euro. Dois pontos da apólice passam a importar: a cobertura territorial (onde o fato pode ocorrer) e a jurisdição (onde a reclamação pode ser ajuizada). Apólices brasileiras costumam limitar a jurisdição ao Brasil ou excluir Estados Unidos e Canadá; clientes de lá exigem o contrário. Com subsidiária no exterior, a apólice brasileira em geral não pode responder localmente, e o desenho passa a ser programa: apólice master no Brasil com apólices locais onde houver operação. É o tipo de estruturação que a GVM trata em atuação internacional.
Nesse estágio, o D&O ganha cobertura da própria empresa em preparação para M&A e prazo suplementar para a troca de controle; o cyber ganha interrupção com período de indenização compatível com o SLA prometido; e o seguro garantia entra nos contratos de grande porte, públicos e privados.
O primeiro seguro muda com o modelo
| Modelo | Primeiro seguro | Segundo | Quando o D&O entra |
|---|---|---|---|
| Aplicativo mobile com usuário final | Cyber (dados de titulares desde o dia 1) | E&O no primeiro contrato B2B | Rodada com conselho |
| Aplicativo desktop instalado no cliente | E&O (dano ao ambiente do cliente) | Cyber, se há acesso remoto ou dados | Rodada com conselho |
| Software house / empresa de programadores | E&O (escopo, prazo, aceite) | Cyber quando acessa produção do cliente | Sócio externo ou conselho |
| Servidores, hospedagem, processamento de dados | Cyber com interrupção + equipamentos | E&O (SLA) | Rodada ou operação regulada |
| Consultoria de tecnologia | E&O (a recomendação é o produto) | Cyber, se acessa ambientes do cliente | Raramente antes de conselho |
| Fintech / healthtech | Cyber + E&O juntos | D&O cedo (operação regulada) | Desde a constituição, se regulada |
O que o contrato do cliente (MSA/SLA) costuma exigir e como ler a cláusula de seguros
A cláusula de seguros do MSA é curta e cara. Antes de assinar, extraia dela sete dados e mande para a corretora como briefing de cotação:
- Coberturas nomeadas — E&O (technology errors and omissions, professional liability), cyber (network security and privacy liability), às vezes RC geral e D&O.
- Limite por reclamação e agregado anual — e se o limite pode ser compartilhado com outros clientes ou precisa ser dedicado.
- Data de retroatividade exigida — frequentemente “desde o início da prestação dos serviços”.
- Prazo de manutenção após o término — a cauda; um a três anos é comum.
- Segurado adicional — se o cliente pede para constar na apólice.
- Aviso prévio de cancelamento ou redução — em dias.
- Forma de comprovação — certificado (COI) em modelo do cliente, com prazo.
Dois alertas. Contratos redigidos fora do Brasil às vezes pedem E&O “à base de ocorrência” — esse produto não existe no mercado; peça alteração para claims made com retroatividade. E “limite mínimo” é piso do cliente, não teto seu: se o seu maior contrato é maior que o mínimo pedido, o limite certo é o do maior contrato. O que as cláusulas de responsabilidade em volta dessa — teto, indenidade, SLA — impõem de fato está no artigo sobre o contrato.
Quais são os principais seguros empresariais para startups e como comparar planos voltados para empresas em crescimento?
Os principais são E&O de tecnologia e cyber, sempre; D&O a partir da rodada ou em operação regulada; equipamentos, vida em grupo, RC geral e patrimonial conforme o fato gerador; garantia quando o cliente exige. Comparar planos é comparar sete coisas, antes do prêmio:
- Limite por reclamação e agregado — e se o agregado é compartilhado entre coberturas.
- Franquia — valor, e se incide por reclamação ou por evento.
- Retroatividade e cauda — a data que a seguradora aceita e o prazo suplementar em caso de não renovação.
- Exclusões que atingem o seu modelo — dados de cartão, dados de saúde, atos regulatórios, propriedade intelectual, subcontratados.
- Resposta a incidentes — no cyber, quem atende, em que prazo e se o acionamento é 24 horas.
- Território e jurisdição — onde o fato pode ocorrer e onde a reclamação pode ser proposta.
- Capacidade de crescer — se limite e coberturas podem ser ampliados por endosso no meio da vigência, quando o contrato grande chegar.
Duas propostas com o mesmo preço respondem de forma diferente ao mesmo sinistro. A mais barata quase sempre tem a exclusão mais larga.
Quanto custa: o que move o preço
Não há tabela, e valores publicados sem conhecer a operação são chute. O que dá para dizer com segurança é o que move o prêmio, e em que direção.
| Seguro | Base de cálculo | O que puxa para cima | O que puxa para baixo |
|---|---|---|---|
| E&O | Faturamento, limite, modelo de negócio | Contratos enterprise, clientes financeiros/saúde/governo, retroatividade longa, histórico de reclamações | Teto de responsabilidade bem redigido, escopo definido, sem acesso a produção do cliente |
| Cyber | Faturamento, volume e tipo de dado, limite | Dados de cartão, saúde, larga escala; interrupção com período longo; histórico de incidente | MFA em tudo, backup segregado e testado, EDR, gestão de acessos, plano de resposta |
| D&O | Porte, estrutura societária, setor, limite | Setor regulado, operação no exterior, histórico societário, situação financeira frágil | Governança documentada, atas, auditoria |
| Equipamentos | Valor do parque e perfil de uso | Frota portátil grande, endereço sem controle de acesso | Proteção elétrica, inventário atualizado, franquia maior |
| Vida em grupo | Número de vidas, idade média, capital | Capitais altos, faixa etária elevada | Grupo jovem, capital por múltiplo salarial |
| Garantia | Percentual do valor garantido | Balanço fraco, prazo longo, contragarantia exigida dos sócios | Histórico de execução, saúde financeira |
Três observações que valem para todas as linhas. O limite é o principal componente do prêmio, mas o prêmio cresce menos que proporcionalmente ao limite: dobrar o limite não dobra o custo, o que torna o sublimite baixo uma economia ruim. A franquia é a alavanca de preço mais controlável: assumir a primeira parcela do prejuízo reduz o prêmio, desde que a empresa consiga pagá-la no pior mês. E a maturidade de segurança é o único fator que reduz o prêmio e o risco ao mesmo tempo; o diagnóstico de risco digital percorre os controles que a seguradora vai perguntar.
Um exemplo hipotético para fixar a lógica, sem valores. Duas SaaS com o mesmo faturamento cotam E&O e cyber. A primeira vende para varejo, guarda apenas nome e e-mail, tem MFA e backup testados e contratos com teto de doze meses. A segunda vende para hospitais, guarda prontuário, não tem MFA no acesso administrativo e assinou um contrato que exige limite cinco vezes maior. A segunda pagará múltiplas vezes o prêmio da primeira — e a maior parte da diferença vem do limite exigido e do dado tratado, não do faturamento. O processo de cotação, com o que levar e o que esperar, está em como funciona a cotação com um corretor.
Tabela comparativa: os sete seguros lado a lado
| Seguro | Risco que cobre | Quem costuma exigir | Quando contratar | O que não cobre |
|---|---|---|---|---|
| E&O de tecnologia | Prejuízo financeiro do cliente por falha do serviço | Cliente B2B (MSA) | Primeiro contrato B2B | Multa de SLA, retrabalho próprio, dolo |
| Cyber | Incidente de segurança, LGPD, ransomware, interrupção | Cliente B2B, investidor, base de usuários | Primeiro usuário com dado pessoal | Dano físico, falha conhecida não corrigida, multa não segurável |
| D&O | Patrimônio pessoal dos gestores por atos de gestão | Investidor, conselheiro, regulador | Primeira rodada com conselho; antes, se regulada | Dolo, fraude, erro técnico do serviço |
| Equipamentos de informática | Dano, roubo e quebra de hardware fixo e portátil | A própria operação; locador, às vezes | Quando o hardware é ativo relevante | Dados, desgaste, garantia do fabricante |
| Vida em grupo | Morte e invalidez por acidente do time | Convenção coletiva, mercado de talentos | Crescimento do headcount | Doença preexistente, conforme condições |
| RC geral + patrimonial | Dano a terceiros e ao imóvel; incêndio, roubo | Locador, coworking, organizador de evento | Escritório alugado ou evento com público | Prejuízo financeiro puro (o bug) |
| Seguro garantia | Inadimplemento contratual perante o contratante | Governo (Lei 14.133/2021), grandes empresas | Homologação da licitação; contrato com exigência | Não protege a startup: garante o cliente |
Erros comuns do fundador
- Comprar o D&O antes do E&O. Sem conselho nem sócio externo, o D&O protege uma exposição que ainda não existe, enquanto o contrato assinado roda descoberto.
- Achar que a apólice do coworking ou do provedor de nuvem cobre a empresa. A do coworking cobre o espaço, não o seu notebook; a do provedor cobre a infraestrutura dele, não a sua configuração nem os seus dados.
- Tratar seguro como custo fixo a cortar. Em tecnologia B2B, E&O e cyber são pré-requisito de venda. Cortá-los é fechar a porta para o cliente que tem processo de compras.
- Contratar na pessoa jurídica errada. Holding, operacional e a PJ dos fundadores são segurados diferentes. A apólice deve estar em nome de quem assina o contrato com o cliente — e nomear as demais quando necessário.
- Deixar vencer entre rodadas. Uma lacuna de trinta dias em apólice à base de reclamações pode apagar anos de retroatividade. Renovação atrasada não é detalhe administrativo.
- Declarar faturamento e dados por baixo para reduzir o prêmio. É a via mais curta para a negativa. A seguradora compara o declarado com o real no sinistro, não na contratação.
- Receber o pedido de certificado e só então cotar. A cotação de E&O e cyber leva dias; a de garantia, semanas. Com o contrato parado esperando, o poder de negociação é zero.
Checklist por estágio
Pré-seed e seed
- Ler a cláusula de seguros de todo MSA antes de assinar; extrair os sete dados.
- Cotar E&O e cyber juntos, com limite pelo maior contrato e retroatividade desde o início da operação.
- Equipamentos portáteis se os notebooks são da empresa; inventário com nota fiscal.
- Patrimonial e RC geral se há locação ou evento.
- D&O só se regulada ou com sócio externo.
Série A
- D&O antes da primeira reunião de conselho, com definição de segurado que inclua administradores de fato e o conselheiro do fundo.
- Revisar limite de cyber e E&O contra a nova base de dados e os novos contratos.
- Vida em grupo conforme convenção coletiva e pacote de benefícios.
- Montar o quadro de seguros para o data room.
Escala e internacional
- Verificar território e jurisdição da apólice contra os MSAs estrangeiros.
- Programa master com apólices locais onde houver subsidiária.
- Interrupção no cyber compatível com o SLA prometido.
- Garantia para contratos públicos e privados com exigência; iniciar na homologação.
- D&O com prazo suplementar para mudança de controle.
Fale com a GVM
A ordem certa é a que o seu contrato, a sua rodada e o seu modelo pedem — e ela muda a cada estágio. A GVM monta o programa a partir do que a empresa assina e trata, não de um pacote de prateleira: lê o MSA, dimensiona limite e retroatividade, cota com seguradoras que entendem SaaS, software house, infraestrutura e hardware, e emite o certificado no prazo que o cliente deu. Se há um contrato na mesa ou uma rodada em andamento, fale com a GVM: a análise é sem compromisso.
Este artigo explica o tema. Para ver coberturas, exclusões, o que influencia o preço e pedir uma cotação, veja a página do Seguro de Responsabilidade Civil para Empresas de Tecnologia (E&O).
Perguntas frequentes
Dúvidas rápidas sobre o tema
Existe seguro para startups digitais?
Sim, mas não como um produto único. O que o mercado chama de seguro para startups digitais é um programa de até sete apólices — E&O de tecnologia, cyber, D&O, equipamentos de informática, vida em grupo, RC geral com patrimonial e seguro garantia — contratadas em ordem, conforme o estágio. Para a seguradora, o enquadramento legal de startup (Lei Complementar 182/2021) não muda a análise; o que pesa é o que a empresa entrega, para quem, com que contrato e tratando quais dados.
Quais são os principais seguros empresariais para startups e como comparar planos?
Os principais são o E&O de tecnologia e o cyber, desde o primeiro contrato ou o primeiro usuário; o D&O a partir da rodada com conselho; e equipamentos, vida em grupo, RC geral, patrimonial e garantia conforme o fato gerador. Para comparar planos, olhe antes do prêmio: limite por reclamação e agregado, franquia, data de retroatividade e cauda, exclusões que atingem o seu modelo, quem presta a resposta a incidentes e em que prazo, território e jurisdição, e se a apólice pode crescer por endosso quando o contrato grande chegar.
Seguro para empresa de programadores é o mesmo que E&O?
Sim. Seguro para empresa de programadores, seguro para softwares, seguro para consultoria de tecnologia e RC profissional de TI são nomes do mesmo produto: o E&O (errors and omissions) de tecnologia, que cobre o prejuízo financeiro causado ao cliente por falha do serviço ou do software entregue. O que muda entre uma software house e uma consultoria é o clausulado — falha do produto num caso, erro de recomendação no outro — e não a apólice.
Quais são as melhores apólices para proteger equipamentos eletrônicos de uma empresa de tecnologia?
Depende de onde o equipamento fica. Servidores, storage e estações fixas no endereço entram no seguro de equipamentos de informática (Riscos Diversos), com dano elétrico, incêndio, roubo e quebra. Notebooks e dispositivos que circulam pedem a modalidade de equipamentos portáteis, que cobre roubo e queda fora do escritório, inclusive em home office e viagem. Imóvel e instalações ficam no patrimonial, cujo sublimite de dano elétrico raramente alcança um parque de TI. Nenhuma das três cobre os dados: isso é seguro cyber.
Startup em estágio inicial precisa de D&O?
Em regra, não antes de ter conselho, investidor ou sócio externo relevante. Até aí, sócios e administradores são as mesmas pessoas e a exposição a reclamação por ato de gestão é pequena; o dinheiro rende mais em E&O e cyber. As exceções são fintechs, healthtechs e outras operações reguladas, em que processos administrativos podem atingir os gestores desde o início. Com a primeira rodada, o D&O vira exigência do term sheet e condição para o conselheiro indicado pelo fundo assumir.
Empresa que desenvolve aplicativos mobile ou desktop precisa de que seguro?
Aplicativo mobile com usuário final começa pelo cyber, porque há dados pessoais de titulares desde o primeiro cadastro, e acrescenta o E&O no primeiro contrato B2B. Aplicativo desktop instalado no ambiente do cliente começa pelo E&O, que responde pelo dano que uma atualização ou integração causa ao sistema hospedeiro, e acrescenta o cyber se há acesso remoto ou tratamento de dados. Nos dois casos, o limite acompanha o maior contrato, e a retroatividade deve alcançar as versões já em produção.
Quanto custa o seguro de uma startup?
Não existe tabela, e valor sem conhecer a operação é chute. O prêmio de E&O e cyber é calculado sobre faturamento, tipo e volume de dados, limite, franquia, retroatividade, setor dos clientes e maturidade de segurança; o do D&O, sobre porte, estrutura societária e setor; o de equipamentos, sobre o valor do parque e o uso fixo ou portátil. O limite é o principal componente, mas o prêmio cresce menos que proporcionalmente a ele. Controles como MFA e backup testado reduzem o preço do cyber e a chance de precisar dele.
Quais são as opções de seguro para o profissional de tecnologia autônomo?
Cinco coberturas resolvem quase tudo para o PJ que presta serviço a startups: E&O individual, que o contrato do cliente pode exigir; cyber para pequeno porte, quando há acesso a ambientes de produção; DIT (diária por incapacidade temporária) para repor a renda em afastamento; vida individual com cobertura de invalidez; e equipamentos portáteis para o notebook. A ordem segue a mesma lógica da empresa: primeiro o que o contrato exige, depois o evento que interromperia a renda.
Conteúdo informativo produzido por corretora registrada na SUSEP (nº 222134993); não substitui a leitura das condições gerais da apólice nem orientação jurídica individualizada. Valores e coberturas variam conforme seguradora, perfil e vigência.
Leia também