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Como funciona

Como funciona a franquia do seguro (e como escolher a sua)

A franquia é a alavanca mais mal compreendida da apólice: reduz o prêmio, mas define quanto sai do seu bolso em cada sinistro. Os tipos, a lógica, os exemplos por ramo e o critério para escolher bem.

Por Guilherme Vieira Meyer, corretor de seguros (SUSEP nº 222134993) · · Atualizado em

Duas propostas de seguro na mesa, mesma cobertura, mesmo limite — e preços diferentes. Antes de fechar a mais barata, corra o olho por uma linha que costuma passar despercebida e que muda tudo: a franquia. Ela não aparece no dia da contratação; aparece no dia do sinistro, quando define exatamente quanto sai do seu bolso antes de a seguradora entrar. É a peça mais mal compreendida da apólice — e, quando bem usada, uma das mais poderosas.

Este guia destrincha a franquia por inteiro: o que ela é, por que existe, todos os formatos que você vai encontrar (dedutível, simples, reduzida, majorada, em dias, agregada), como ela se diferencia da participação obrigatória e do limite, como mexe no preço, como ela aparece em cada ramo e — o que mais importa — como escolher o valor certo sem se descobrir exposto no pior momento.

O que a franquia é — e por que ela existe

A franquia é a participação do segurado no prejuízo de cada sinistro. É a fatia do dano que fica por sua conta; a seguradora indeniza o que passar dela, sempre até o limite contratado. A conta clássica da franquia dedutível é simples: prejuízo menos franquia = indenização (nunca acima do limite da apólice).

Um exemplo puramente ilustrativo, sem valores de mercado: se o prejuízo equivale a cinco vezes a franquia, a seguradora paga o prejuízo menos uma dessas partes — quatro quintos do dano. Se o prejuízo fica abaixo da franquia, você resolve sozinho e a apólice sequer é acionada. Para ver essa divisão em números — com franquia de valor fixo ou percentual com mínimo —, o simulador de franquia mostra, de forma ilustrativa, quanto fica com você e quanto com a seguradora em cada cenário.

Parece um detalhe técnico, mas a franquia carrega uma lógica que faz sentido tanto para a seguradora quanto para você. Ela existe por três motivos:

  1. Elimina o sinistro pequeno da apólice. Acionar seguro para trocar um vidro ou consertar um arranhão custa mais em processo, vistoria e administração do que o próprio conserto. A franquia filtra esses eventos miúdos e, com isso, barateia o produto para todo mundo.
  2. Alinha incentivos. Quem participa do prejuízo cuida melhor do risco. A franquia mantém o segurado com “a pele em jogo” — reduz descuido e desestimula o acionamento por qualquer coisa. No jargão do setor, ela combate o risco moral.
  3. É a sua alavanca de preço. Reter mais risco significa pagar menos prêmio. A franquia é o botão que transfere responsabilidade entre você e a seguradora — e o preço acompanha esse ajuste.

Um detalhe que pega muita gente: a franquia é por cobertura, não por apólice

Não existe “a franquia do seguro” no singular. Uma mesma apólice empresarial pode ter franquia zero para incêndio, participação obrigatória de um percentual para danos elétricos e franquia fixa para roubo — cada cobertura com o seu próprio desenho. Ler a especificação de cada uma não é preciosismo: é a única forma de saber, de verdade, quanto você assume em cada tipo de evento.

E ela vale por sinistro — o que muda tudo num ano ruim

Em regra, a franquia incide a cada evento coberto, não uma vez por ano. Dois sinistros no mesmo período significam, quase sempre, duas franquias. Isso importa na hora de escolher: uma franquia que parece confortável para um evento isolado pode pesar bastante se o seu risco tem alta frequência. A exceção é a franquia agregada, que veremos adiante.

Franquia não é limite, prêmio, carência nem coparticipação

Antes de mergulhar nos tipos, vale separar a franquia de quatro conceitos com os quais ela é confundida o tempo todo. Errar aqui custa dinheiro e proteção.

  • Franquia x limite (LMI). São os dois extremos da mesma régua. A franquia é o piso: o quanto você paga antes de a apólice responder. O limite (Limite Máximo de Indenização) é o teto: o máximo que a seguradora paga. A franquia mexe no bolso do dia ruim; o limite mexe na sobrevivência do negócio no cenário catastrófico. Guarde esta distinção — ela reaparece na hora de escolher.
  • Franquia x prêmio. O prêmio é o que você paga pela apólice, tenha sinistro ou não. A franquia só entra em cena se e quando houver sinistro. São dois desembolsos em momentos diferentes: o prêmio é certo e planejado; a franquia é eventual e chega junto com o prejuízo.
  • Franquia x carência. A carência é um período no início da vigência em que certas coberturas ainda não valem (mais comum em vida e saúde). A franquia — inclusive a franquia em dias — incide dentro de cada sinistro, com o seguro já plenamente vigente. Uma diz “ainda não estou cobrindo”; a outra diz “estou cobrindo, mas esta parte é sua”.
  • Franquia x coparticipação. No plano de saúde, a coparticipação é o percentual que o beneficiário paga por procedimento — primo próximo da participação obrigatória, mas é termo de outro mercado. Nos seguros de dano e de responsabilidade, o vocabulário correto é franquia e POS.

Os tipos de franquia que você vai encontrar

Aqui está o coração do assunto. Os formatos abaixo aparecem, com nomes ligeiramente diferentes, em quase todos os ramos.

Franquia dedutível (a clássica)

É a mais comum e a que a maioria das pessoas tem em mente. A seguradora sempre desconta o valor da franquia da indenização. Prejuízo acima da franquia? Você recebe a diferença. Prejuízo abaixo? A apólice não paga nada, porque o dano inteiro cabe dentro da sua participação. É o modelo padrão do seguro de automóvel para danos parciais e de boa parte das coberturas patrimoniais.

Franquia simples (o formato “tudo ou nada”)

Menos usada hoje, mas ainda presente em alguns clausulados — e frequentemente confundida com a dedutível. Na franquia simples, existe um patamar: se o prejuízo fica abaixo dele, a seguradora não paga nada; se passa desse patamar, ela indeniza o prejuízo inteiro, sem descontar a franquia. A diferença prática é enorme perto do patamar. Imagine dois sinistros parecidos, um logo abaixo e outro logo acima do valor da franquia: na dedutível, ambos rendem indenizações próximas; na simples, o primeiro rende zero e o segundo rende quase o dobro. Por isso a pergunta “a minha franquia é simples ou dedutível?” não é detalhe — é leitura obrigatória.

Franquia reduzida e franquia majorada (o par do dia a dia)

Este par aparece muito no seguro de automóvel, mas a lógica vale para outros ramos. Partindo de uma franquia normal (obrigatória) definida pela seguradora, você em geral pode escolher:

  • Franquia reduzida: um valor menor de participação. Você assume menos no sinistro — e, em troca, paga mais prêmio. É o “conforto” de ter menos surpresa no bolso quando o sinistro acontece.
  • Franquia majorada: um valor maior de participação. Você assume mais no sinistro — e, em troca, paga menos prêmio. É a escolha de quem quer o seguro para o evento grave e aguenta o pequeno sozinho.

Pense na franquia reduzida/majorada como um dimmer, não um interruptor: você regula quanto de risco transfere e o preço acompanha. Nem sempre o extremo é o melhor — o ponto ideal é o que veremos no método de escolha.

Isenção de franquia (franquia zero)

Algumas coberturas ou eventos podem vir sem franquia. No automóvel, o exemplo clássico é a perda total: em geral não há franquia quando o veículo é indenizado integralmente (a franquia costuma incidir só nos danos parciais). Também há produtos que oferecem isenção de franquia como diferencial comercial. Atenção, porém: franquia zero não é de graça — ela está embutida no prêmio. Em coberturas de alta frequência, pagar por franquia zero costuma ser mais caro do que simplesmente arcar com os sinistros pequenos quando eles vierem.

Franquia em dias (a franquia do tempo)

Nem toda franquia é um valor em dinheiro. Em coberturas que indenizam por tempo de paralisação, a franquia costuma ser um período. Nos lucros cessantes, por exemplo, os primeiros dias de interrupção da atividade correm por conta do segurado; a indenização só começa a contar depois desse prazo. A mesma ideia aparece no seguro de diária por incapacidade temporária (DIT), em que há um número de dias de franquia antes de as diárias começarem a ser pagas, e nas coberturas de interrupção de negócios do seguro cyber, onde o “período de espera” (às vezes contado em horas) funciona exatamente como uma franquia temporal. Franquia em dias maior = prêmio menor, pela mesma lógica de sempre.

Franquia agregada (ou franquia anual)

Menos comum e típica de programas de risco maiores. Em vez de incidir sinistro a sinistro, a franquia agregada estabelece um total que o segurado absorve ao longo do ano; ultrapassado esse acumulado, a apólice passa a responder integralmente pelos sinistros seguintes. É uma forma de dar previsibilidade a quem tem muitos eventos pequenos: você sabe, de antemão, qual é o seu desembolso máximo com franquias no período.

Em resumo: os formatos lado a lado

Para fixar antes de seguir:

  • Dedutível: desconta sempre a franquia da indenização. A mais comum.
  • Simples: abaixo do patamar, não paga nada; acima dele, paga o prejuízo inteiro, sem desconto.
  • Reduzida / majorada: o mesmo risco com participação menor (prêmio maior) ou maior (prêmio menor).
  • Isenção (zero): sem franquia — conforto que vem embutido no prêmio.
  • POS (participação obrigatória): percentual do prejuízo, em geral com um mínimo.
  • Em dias: franquia medida em tempo (lucros cessantes, DIT, interrupção no cyber).
  • Agregada: teto anual de participação; ultrapassado, a apólice responde por inteiro.

Franquia x POS: a participação obrigatória do segurado

A POS — Participação Obrigatória do Segurado é parente próxima da franquia, mas com um desenho diferente que vale entender.

  • A franquia costuma ser um valor fixo por sinistro. Muda o prejuízo, o valor da franquia continua o mesmo.
  • A POS costuma ser um percentual do prejuízo, muitas vezes com um piso mínimo. Uma redação típica é algo como “participação de um percentual dos prejuízos, respeitado um mínimo”. Quanto maior o dano, maior (em valor absoluto) a sua participação — porque ela acompanha o tamanho do prejuízo.

A POS é muito comum em coberturas patrimoniais de eventos de alta frequência ou difícil controle: danos elétricos, vendaval, alagamento, tumultos. Ali, a seguradora prefere que o segurado participe proporcionalmente ao tamanho do estrago.

Na prática, uma mesma apólice pode combinar os dois formatos — franquia fixa em algumas coberturas, POS em outras. Não existe “certo” e “errado” em abstrato: existe o que faz sentido para o perfil de cada risco. O que não dá para fazer é comparar duas propostas olhando só o prêmio, porque uma pode trazer franquia fixa modesta e a outra uma POS percentual que, no sinistro típico do seu negócio, devolve bem menos.

Como a franquia mexe no preço

Aqui está o motivo de a franquia ser chamada de alavanca. A regra geral é direta: quanto maior a franquia, menor o prêmio — e vice-versa. Você está literalmente comprando de volta (ou vendendo) risco para a seguradora.

Mas três nuances mudam a decisão:

1. A relação não é linear. Dobrar a franquia não corta o prêmio pela metade. Isso porque a franquia elimina sobretudo os sinistros pequenos e frequentes — que são baratos por evento, mas somam. Os primeiros aumentos de franquia costumam trazer o maior desconto proporcional; a partir de certo ponto, subir mais a franquia rende cada vez menos economia, porque os sinistros grandes (que a seguradora continua pagando) é que dominam o custo. Traduzindo: existe um ponto de rendimento decrescente, e passar dele é assumir muito risco em troca de pouco desconto.

2. Frequência importa mais que você imagina. Em coberturas de alta frequência (danos elétricos, pequenas colisões, quebra de vidros), uma franquia baixa ou zero encarece muito o prêmio, porque a seguradora precifica um monte de sinistros prováveis. Nessas, faz sentido reter mais. Já nas coberturas de baixa frequência e alta severidade (um incêndio de grande porte, uma ação de responsabilidade civil vultosa), a franquia influencia menos o preço — o que a seguradora teme ali é o evento raro e caro, não a franquia.

3. Franquia zero tem preço — e nem sempre vale. É tentador contratar tudo sem franquia para “não ter dor de cabeça”. Mas, como vimos, esse conforto está embutido no prêmio. Para quem tem caixa para absorver o sinistro pequeno, pagar por franquia zero é pagar duas vezes: no prêmio mais alto e na perda de uma economia que estava na mesa.

Se o assunto é preço, vale ler também como as demais variáveis se combinam na conta — a franquia é uma delas, mas o limite, o perfil de risco e a própria seguradora também pesam. Nos seguros de responsabilidade civil, por exemplo, mostramos essa mecânica em detalhe em quanto custa um seguro de RC.

Como a franquia aparece em cada ramo

O conceito é único, mas o vestido muda conforme o seguro. Veja os casos mais comuns.

Automóvel

O território mais familiar. A franquia é, em regra, dedutível e incide sobre danos parciais (colisão, capotagem, incêndio parcial). Na perda total, normalmente não há franquia. Você costuma escolher entre franquia reduzida, normal ou majorada, com o prêmio subindo ou descendo conforme a opção. Coberturas de danos a terceiros (RCF-V) em geral não têm franquia, porque quem sofre o prejuízo é o terceiro, não você. E cuidado com um ponto operacional: a franquia do automóvel costuma ser paga à oficina no reparo — ou seja, é desembolso de caixa no momento do conserto. Vale ainda checar tratamentos específicos: vidros e cristais costumam ter cobertura à parte, muitas vezes com franquia própria e menor, e alguns produtos oferecem reparos estéticos leves sem consumir a franquia principal — detalhes que mudam a experiência no dia a dia.

Patrimonial (empresarial e residencial)

É onde a variedade de formatos aparece toda junta. Uma apólice patrimonial bem montada pode ter franquia zero para incêndio/raio/explosão, POS percentual para danos elétricos, vendaval e alagamento e franquia fixa para roubo/furto qualificado. Em risco empresarial, a cobertura de lucros cessantes costuma trazer franquia em dias. É o ramo em que ler a especificação cobertura por cobertura mais faz diferença — e onde uma comparação técnica separa propostas que, no prêmio, pareciam idênticas.

Equipamentos e riscos de engenharia

Nos seguros de equipamentos e no seguro de riscos de engenharia, a franquia costuma ser percentual sobre o prejuízo, com um mínimo — e frequentemente por equipamento ou por item, não por evento. Isso importa em obras e em parques de máquinas: um evento que atinge vários bens pode acionar várias franquias. Nas coberturas de riscos de engenharia para construção, o desenho de franquia varia conforme a fase da obra e o tipo de risco (montagem, teste, manutenção), e é um dos pontos que mais impactam a proposta.

Responsabilidade civil (profissional e empresarial)

Nos seguros de RC — como os de responsabilidade civil de médicos e demais profissões —, a franquia em geral incide sobre a indenização paga ao terceiro e, conforme o produto, também sobre os custos de defesa. Esse último ponto é decisivo e passa despercebido: uma apólice em que a franquia se aplica aos custos de defesa deixa você bancando parte da advocacia; outra, com defesa “por fora” da franquia, protege o seu caixa desde a primeira intimação. Em RC, a franquia também dialoga com a estrutura claims-made (à base de reclamações) e com a retroatividade. Na comparação de propostas de RC, o desenho da franquia é, muitas vezes, o que de fato separa coberturas parecidas no preço.

Lucros cessantes, DIT e cyber (a franquia do tempo)

Como vimos, aqui a franquia é medida em tempo, não em dinheiro. Nos lucros cessantes, são os primeiros dias de paralisação; no DIT, os primeiros dias de afastamento; na interrupção de negócios do seguro cyber, um período de espera contado em horas ou dias. Escolher esse prazo é o mesmo raciocínio da franquia em dinheiro: quanto tempo a operação (ou o profissional) aguenta sem indenização antes de o baque começar a doer?

Onde, em regra, não há franquia

Nem todo seguro trabalha com franquia. Nos seguros de vida — seja o seguro de vida individual, seja o em grupo —, a indenização é o capital segurado contratado, pago integralmente na ocorrência do evento coberto: não há “participação no prejuízo” a descontar. E no seguro garantia a lógica é ainda mais distinta: não há franquia nem participação do segurado, porque não se trata de indenizar um prejuízo próprio do tomador, e sim de garantir a um beneficiário o cumprimento de uma obrigação — se o tomador falha, a seguradora paga o valor garantido, respeitado o limite. Entender que a franquia é característica dos seguros de dano e de responsabilidade ajuda a não procurá-la onde ela não existe.

Como escolher a franquia certa (o critério que usamos)

A pergunta errada é “qual a menor franquia possível?”. A pergunta certa é: “quanto o meu caixa absorve num mês ruim sem comprometer a operação?” A franquia bem escolhida é aquela que você consegue pagar sem susto no dia do sinistro — e que, em troca, alivia o prêmio o ano inteiro.

O método prático, em quatro passos:

  1. Defina a sua retenção confortável. É o valor de prejuízo que a empresa (ou o profissional) paga do próprio bolso sem parar de funcionar. Não é o quanto você “gostaria” de pagar — é o quanto você aguenta pagar de surpresa. Considere que a franquia chega junto com o prejuízo, no pior momento de caixa.
  2. Peça a cotação em dois ou três cenários de franquia. A diferença de prêmio entre eles mostra, em números, quanto a seguradora “paga” pelo risco que você retém. Sem esse comparativo, você está escolhendo no escuro.
  3. Confronte o ganho anual de prêmio com o custo do cenário ruim. Se subir a franquia economiza pouco no prêmio anual e expõe você a um desembolso relevante no sinistro, o desconto não paga o risco. Se a economia anual é significativa e o desembolso extra cabe no seu caixa, a franquia maior provavelmente compensa. É uma conta de payback: em quantos sinistros a economia de prêmio se “gasta”?
  4. Ajuste por frequência. Risco de alta frequência (muitos eventos pequenos prováveis) pede franquia mais baixa, porque você acionaria com frequência. Risco de baixa frequência e alta severidade (o seguro existe para o evento raro e grave) tolera — e pede — franquia mais alta.

Dois lembretes fecham o método. Primeiro: a franquia certa de hoje pode não ser a de amanhã. Conforme o caixa cresce (ou aperta), o patrimônio muda ou a frequência de sinistros se altera, vale revisitar a franquia a cada renovação — é um ajuste barato que quase ninguém faz. Segundo: lembre que a franquia chega no pior momento de caixa, junto com o prejuízo. Uma franquia ótima na planilha, mas que você não teria como pagar numa semana ruim, não é ótima: é um risco escondido que só aparece quando já é tarde.

A regra de ouro: se apertar, mexa na franquia, nunca no limite

Esta é a frase que mais repetimos aos clientes. Quando o orçamento aperta, a tentação é rebaixar o limite para economizar. É o pior corte possível: você está tirando proteção exatamente no cenário catastrófico, que é o motivo de o seguro existir. A franquia mexe no bolso do dia ruim; o limite mexe na sobrevivência do negócio. Aumente a franquia até o ponto que o seu caixa suporta, negocie condições, revise coberturas repetidas — mas preserve o limite. Um seguro que não paga o sinistro grande é o mais caro de todos, por mais barato que tenha sido o prêmio.

Os erros clássicos com franquia

Depois de muitas cotações comparadas, estes são os tropeços que mais vemos:

  • Comparar propostas só pelo prêmio. Duas propostas com o mesmo preço podem ter desenhos de franquia completamente diferentes — e a mais “barata” pode ser a que devolve menos no sinistro. O prêmio é uma linha; a franquia é a outra metade da conta.
  • Escolher a menor franquia por reflexo. Franquia mínima é conforto que se paga caro no prêmio, sobretudo em cobertura de alta frequência. Nem sempre vale.
  • Escolher a maior franquia só para economizar. O oposto também machuca: a franquia majorada que parece ótima na renovação vira um problema quando o sinistro chega e o caixa não tem como cobri-la. Franquia que você não consegue pagar é, na prática, uma cobertura que você não tem.
  • Esquecer que a franquia é por sinistro. Num ano com vários eventos pequenos, cada um carrega a sua franquia. Some antes de decidir.
  • Ignorar a franquia sobre custos de defesa em RC. Em responsabilidade civil, checar se a franquia incide sobre a defesa (e não só sobre a indenização) é dos pontos mais relevantes — e dos mais negligenciados.
  • Confundir franquia com carência. Achar que “não tem franquia” quando, na verdade, existe carência (ou vice-versa) gera frustração exatamente na hora de acionar.
  • Não confirmar se a franquia é simples ou dedutível. Perto do patamar da franquia, os dois formatos produzem indenizações muito diferentes. Vale perguntar.

Um exemplo prático: quando a franquia decide o vencedor

Nada fixa o conceito como um caso. Vamos usar unidades ilustrativas, sem qualquer valor de mercado, só para enxergar a mecânica. Imagine que você recebe duas propostas para o mesmo risco, com o mesmo limite:

  • Proposta A: prêmio um pouco mais alto, franquia dedutível baixa.
  • Proposta B: prêmio mais baixo, franquia dedutível bem mais alta — digamos, o dobro da de A.

No papel, B é “mais barata” — e é ela que a maioria fecha. Mas o teste de verdade é simular o sinistro típico do seu risco:

  • Se o seu risco produz sinistros pequenos com frequência, a franquia alta de B engole boa parte da indenização (às vezes o prejuízo fica até abaixo dela, e você não recebe nada). Você aciona pouco e paga muito do próprio bolso. Aqui, A — apesar do prêmio maior — tende a devolver mais ao longo do ano.
  • Se o seu risco só preocupa no evento grande e raro, a franquia (alta ou baixa) é pequena perto do prejuízo catastrófico e quase não muda a indenização. Nesse caso, o menor prêmio de B vence com folga.

Repare o que decidiu a disputa: não foi o prêmio, foi o encontro entre o desenho da franquia e o perfil de sinistro do seu risco. E a conta muda de novo se uma das propostas troca a franquia fixa por uma POS percentual: num prejuízo grande, o percentual pode pesar mais do que uma franquia fixa modesta; num prejuízo pequeno, costuma ser o contrário. É por isso que comparar propostas sem simular o sinistro é decidir no escuro — e é exatamente essa simulação que separa a proposta que parece melhor da que realmente protege melhor.

Perguntas para fazer antes de fechar (sobre a franquia)

Uma lista curta que vale levar para qualquer cotação — feita por você ou conduzida pelo corretor:

  • Qual é o formato da franquia em cada cobertura? Fixa, percentual (POS) ou em dias? E, quando for valor, é simples ou dedutível?
  • A franquia incide por sinistro ou é agregada no ano?
  • Em RC, a franquia se aplica também aos custos de defesa ou só à indenização paga ao terceiro?
  • Há coberturas sem franquia (perda total, incêndio, danos a terceiros)? Quais?
  • Quando vários riscos são atingidos pelo mesmo evento, aplica-se uma franquia só (em geral a maior) ou uma por cobertura?
  • Como a franquia é paga no sinistro — descontada da indenização ou paga diretamente ao prestador?
  • Quanto o prêmio muda entre dois ou três cenários de franquia? (peça sempre esse comparativo lado a lado)
  • Existe carência em alguma cobertura que eu esteja confundindo com franquia?

Cada “não sei” nessa lista é um ponto para esclarecer antes de assinar — não depois do sinistro, quando a resposta já custou dinheiro.

No dia do sinistro: como a franquia é de fato aplicada

Na prática, a franquia entra na regulação do sinistro, quando a seguradora apura o prejuízo e calcula a indenização. Dependendo do ramo, ela pode ser descontada da indenização que você recebe ou paga por você diretamente ao prestador (o caso típico da oficina, no automóvel). Em coberturas com POS, o percentual é calculado sobre o prejuízo apurado, respeitado o mínimo.

Dois pontos operacionais que evitam surpresa:

  • A franquia não muda os seus deveres no sinistro. Avisar a seguradora na data certa, documentar tudo, mitigar o dano — nada disso é dispensado por existir franquia. Se você tem dúvida sobre o passo a passo, veja como funciona um sinistro do aviso à indenização.
  • Quando um mesmo evento aciona várias coberturas, alguns clausulados preveem a aplicação de uma única franquia (em regra, a maior) para aquele sinistro, em vez de somar todas. É um detalhe que varia por produto e que vale confirmar na apólice.

Fechando: a franquia é uma escolha, não um destino

A franquia não é uma imposição a engolir — é uma decisão que você toma, com efeito direto no que paga o ano inteiro e no que desembolsa no dia do sinistro. Escolhida com critério, ela alivia o prêmio sem deixar você descoberto. Escolhida no reflexo — a menor por medo ou a maior por economia —, vira arrependimento na hora errada.

O resumo que fica: entenda qual formato cada cobertura usa (dedutível, simples, POS, em dias), calcule quanto o seu caixa aguenta num sinistro, peça a cotação em cenários para ver o preço do risco que você retém e nunca troque limite por franquia para economizar. A franquia cuida do dia ruim; o limite cuida do pior dia.

Se algum termo desta leitura ficou pela metade — POS, dedutível, LMI, prêmio, sinistro —, o glossário de seguros traz cada um deles explicado sem juridiquês.

Quer ver esse comparativo aplicado ao seu caso — prêmio, franquia, POS e limite lado a lado, cobertura por cobertura? É esse o trabalho técnico que a GVM faz na cotação. Seja você profissional ou empresa, a gente coloca as propostas na mesma mesa, simula o sinistro típico do seu risco e mostra onde está o melhor equilíbrio. Fale com a GVM, sem compromisso — a leitura da apólice faz parte do serviço.

Este artigo explica o tema. Para ver coberturas, exclusões, o que influencia o preço e pedir uma cotação, veja a página do Seguro Patrimonial / Multirrisco para Pequenas e Médias Empresas.

Perguntas frequentes

Dúvidas rápidas sobre o tema

O que é a franquia de um seguro?

É a participação do segurado no prejuízo de cada sinistro: a parte do dano que fica por sua conta antes de a seguradora indenizar o restante, sempre respeitando o limite da apólice. Ela existe para eliminar sinistros pequenos, alinhar incentivos de cuidado com o risco e é uma das principais alavancas do preço.

Franquia maior sempre significa prêmio menor?

Em regra, sim: quanto mais risco você retém, menos a seguradora precifica. Mas a relação não é linear — dobrar a franquia não corta o prêmio pela metade. O ponto ótimo depende de quanto o seu caixa absorve num mês ruim sem doer.

Existe seguro sem franquia?

Existe, em algumas coberturas e produtos — mas o prêmio embute esse conforto. Em coberturas de alta frequência (danos elétricos, por exemplo), a franquia zero costuma sair cara demais para valer a pena. Já em vida e no seguro garantia, a lógica é outra e, em regra, não há franquia.

O que é franquia em dias?

É o formato típico de coberturas que pagam por tempo, como lucros cessantes e diárias por incapacidade: em vez de um valor, a franquia é um período (por exemplo, os primeiros dias de paralisação ou de afastamento ficam por conta do segurado). A indenização só começa a contar depois desse prazo.

Franquia e POS (participação obrigatória) são a mesma coisa?

São parentes. A franquia costuma ser um valor fixo por sinistro; a participação obrigatória do segurado (POS) costuma ser um percentual do prejuízo, muitas vezes com um piso mínimo. Uma mesma apólice pode usar formatos diferentes em cada cobertura — por isso vale ler a especificação de cada uma.

Nos seguros de RC profissional também há franquia?

Sim, em geral aplicada à indenização e, conforme o produto, também aos custos de defesa. Na cotação comparada, o desenho da franquia é um dos pontos que mais diferencia propostas parecidas no preço.

Franquia é a mesma coisa que carência?

Não. A carência é um período no início da vigência em que certas coberturas ainda não valem; a franquia (inclusive a franquia em dias) incide em cada sinistro, com o seguro já vigente. Confundir as duas gera surpresa na hora de acionar.

A franquia vale por sinistro ou por ano?

Em regra, por sinistro: cada evento coberto tem a sua franquia deduzida. Num ano com vários sinistros pequenos, isso soma. A exceção é a franquia agregada, em que o segurado absorve prejuízos até um total anual e, a partir daí, a apólice responde integralmente.

Qual a diferença entre franquia simples e dedutível?

Na dedutível (a mais comum), a seguradora sempre desconta a franquia da indenização. Na franquia simples, se o prejuízo fica abaixo do valor da franquia a seguradora não paga nada; se passa, ela indeniza sem o desconto. Vale confirmar qual das duas a sua cobertura adota.

Conteúdo informativo produzido por corretora registrada na SUSEP (nº 222134993); não substitui a leitura das condições gerais da apólice nem orientação jurídica individualizada. Valores e coberturas variam conforme seguradora, perfil e vigência.

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