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RC Profissional

O dia em que você é processado: o que acontece de verdade

Da citação à sentença: o que realmente acontece quando um profissional é processado — o prazo para se defender, a perícia, os anos no meio, o custo emocional e financeiro, e como a defesa custeada pelo seguro de RC muda cada capítulo dessa história.

Por Guilherme Vieira Meyer, corretor de seguros (SUSEP nº 222134993) · · Atualizado em

Começa como um envelope pardo. Ou um e-mail do fórum. Ou a visita de um oficial de justiça no consultório, na frente da recepcionista. Você é um profissional cuidadoso — médico, advogado, engenheiro, dentista, enfermeiro, contador — e fez o seu trabalho como sempre fez. Mesmo assim, num dia comum, chega a notícia: você está sendo processado.

O que acontece a partir daí é, para a maioria das pessoas, um território completamente desconhecido. Ninguém ensina, na faculdade ou na residência, o que é uma citação, quantos dias você tem para reagir, o que é uma perícia, quanto custa se defender, quanto tempo tudo isso leva e o que, no fim, decide se você perde ou não o seu patrimônio. Este guia percorre esse caminho inteiro — da batida na porta à sentença e aos recursos — com uma pergunta atravessando cada etapa: o que muda quando existe (ou não) um seguro de responsabilidade civil por trás de você.

Não é um folheto. É o mapa realista de um processo, escrito para você entender a sua exposição antes que o envelope chegue. Vale para todas as profissões que assumem responsabilidade técnica — muda o vocabulário do caso, não a lógica do risco.

A citação: o que é e por que o relógio já começou

A citação é o ato pelo qual você é oficialmente chamado a integrar o processo e a se defender. Antes dela, o processo pode até existir há semanas — a petição inicial já foi protocolada, o juiz já despachou —, mas é a citação que traz tudo isso para dentro da sua vida e dá a largada no seu prazo.

Ela pode chegar de várias formas: por carta com aviso de recebimento (a mais comum), por oficial de justiça (o “mandado”), por meio eletrônico quando você tem cadastro nos sistemas do tribunal, ou por edital em situações específicas. O canal muda; o efeito não. A partir do momento em que a citação se aperfeiçoa, o tempo passa a correr contra você.

O que o documento traz

Junto da citação vem, em regra, a petição inicial — a peça em que o autor conta a sua versão e formula o pedido. Nela você vai ler:

  • Quem está processando (o paciente, o cliente, um familiar, o espólio, uma empresa).
  • O que se alega: erro, omissão, falha técnica, informação inadequada, dano estético, perda de uma chance, descumprimento de dever de cuidado.
  • Quanto se pede: às vezes um valor específico, às vezes danos morais e materiais “a serem arbitrados pelo juízo” — o que significa que o número final ainda está em aberto.
  • As provas que o autor pretende produzir: documentos, testemunhas e, quase sempre nos casos técnicos, perícia.

Nesse momento, se a alegação é verdadeira, exagerada ou completamente infundada ainda não importa para o processo. A ação existe, o pedido está posto, e a lei presume que você vai querer se defender. O que você faz nos próximos dias importa muito mais do que quem tem razão no mérito — porque o mérito só será decidido lá na frente.

O prazo para se defender

Aqui está o primeiro ponto onde profissionais desavisados se machucam. Existe um prazo, ele é curto, e ele é fatal.

No procedimento comum — o rito da maioria das ações de indenização —, a defesa se chama contestação, e o prazo, em regra, é de 15 dias úteis. Mas o marco a partir do qual esses dias começam a contar tem detalhes técnicos: em muitos casos, o juiz designa primeiro uma audiência de conciliação ou mediação, e o prazo de contestação só passa a correr depois dela (se não houver acordo). Em outros, conta-se da juntada do comprovante de citação. Prazos processuais, além disso, costumam ser contados em dias úteis, o que muda a data final.

Não decore essa mecânica — o recado prático é outro e é simples: a citação é um documento urgente. No dia em que ela chega, ela vai para as mãos de um advogado, não para a gaveta. A conta do prazo é trabalho dele; a sua obrigação é não deixar o relógio rodar sozinho.

O que acontece se você não reagir

Ignorar a citação é o erro mais caro e mais comum. O processo não desaparece porque você fingiu que ele não existe — ele avança sem a sua versão. Se a defesa não é apresentada no prazo, pode-se configurar a revelia, situação em que, em regra, os fatos afirmados pelo autor passam a ser presumidos verdadeiros. Não é uma condenação automática nem uma presunção absoluta, mas é uma posição muito pior do que a de quem contestou a tempo.

Traduzindo: quem não se defende no prazo entrega ao adversário a versão dos fatos praticamente sem contraditório. Todo o resto do processo passa a ser jogado no campo do outro. É por isso que a primeira etapa desse mapa é também a mais decisiva.

Você pode responder em mais de um lugar ao mesmo tempo

Um mesmo fato pode gerar processos em esferas diferentes, que correm de forma independente. Entender isso evita confusão e desespero:

  • Esfera cível: é a ação de indenização, que discute reparação — quem paga, quanto, por qual dano. É aqui que o seu patrimônio está diretamente em jogo, e é exatamente essa a esfera para a qual o seguro de Responsabilidade Civil Profissional foi desenhado.
  • Esfera ética/administrativa: o conselho de classe (CRM para médicos, OAB para advogados, CREA/CAU para engenheiros e arquitetos, CRO para dentistas, COREN para enfermeiros) pode instaurar um procedimento para apurar infração ética. As sanções vão de advertência à suspensão ou cassação do registro. Alguns seguros oferecem, como cobertura adicional, o custeio da defesa nessa esfera — vale conferir no clausulado.
  • Esfera penal: em situações mais graves, o mesmo fato pode dar origem a uma ação penal. É uma esfera distinta, com regras próprias.

Um profissional pode, no pior cenário, estar respondendo nas três ao mesmo tempo, cada uma no seu ritmo. O seguro de RC concentra-se na esfera patrimonial (a indenização e os custos da defesa cível), que é onde a maior parte das pessoas tem mais a perder financeiramente. Saber que as esferas são separadas ajuda a organizar a defesa e a não tratar uma decisão de uma delas como se resolvesse todas.

Por que a maioria das ações discute a sua conduta

Se você ler cem petições contra profissionais liberais, vai perceber que quase todas giram em torno da mesma pergunta: o profissional agiu com culpa? Isso não é acaso — é a arquitetura jurídica da responsabilidade profissional no Brasil.

Obrigação de meio, não de resultado

Na maioria das profissões técnicas, o que você deve ao cliente ou ao paciente é uma obrigação de meio: empregar diligência, técnica e os melhores recursos disponíveis — não garantir um desfecho. O médico se compromete a tratar bem, não a curar sempre; o advogado, a atuar com zelo, não a vencer a causa; o engenheiro, a projetar segundo a boa técnica, não a impedir todo e qualquer imprevisto.

Há exceções em que a obrigação é tratada como de resultado (a cirurgia com finalidade estética é o exemplo mais citado, e o tema comporta debate). Mas a regra geral é a obrigação de meio — e isso muda tudo na hora de julgar. Se você não prometeu o resultado, o simples fato de o resultado ter sido ruim não basta para condená-lo. É preciso demonstrar que você errou no caminho.

A responsabilidade do profissional liberal é subjetiva

O Código de Defesa do Consumidor traz uma regra específica e importantíssima: a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais é apurada mediante a verificação de culpa (art. 14, § 4º). Ou seja, é uma responsabilidade subjetiva — não basta o dano, é preciso provar que houve negligência, imprudência ou imperícia.

Por isso a conduta é o coração de quase todo processo. Para condenar um profissional liberal, em regra é preciso reunir quatro elementos:

  1. A conduta (o que você fez ou deixou de fazer);
  2. A culpa (que essa conduta se afastou do padrão técnico esperado);
  3. O dano (que houve um prejuízo real);
  4. O nexo causal (que o dano decorreu justamente da sua conduta, e não de outra causa).

Falhando qualquer um desses elos, o pedido tende à improcedência. É comum, por exemplo, existir dano evidente — uma complicação grave — sem que exista nexo com um erro seu: a complicação era um risco inerente e previsto do procedimento, não a consequência de uma falha. Provar essa diferença é o trabalho técnico da defesa.

O ônus da prova (e quando ele se inverte)

Em regra, quem alega precisa provar. Cabe ao autor demonstrar a culpa, o dano e o nexo. Mas nas relações de consumo o juiz pode inverter o ônus da prova quando o consumidor é hipossuficiente ou a alegação é verossímil (art. 6º, VIII, do CDC) — passando a você o encargo de demonstrar que agiu corretamente. Mesmo quando a inversão ocorre, a natureza subjetiva da responsabilidade do profissional liberal costuma manter a culpa como o ponto central da disputa.

Na prática, isso reforça uma lição que vale para todas as profissões: documentar é defender-se antecipadamente. Prontuário completo, termo de consentimento informado assinado, ART/RRT registrada, contrato e comunicações por escrito, relatórios técnicos, atas de reunião. O profissional organizado não impede a ação — mas entra nela com a prova do seu lado.

”Boa parte é improcedente” — e por que isso não te salva sozinho

Existe uma verdade reconfortante e uma armadilha embutida nela. A verdade: como a condenação exige provar culpa e nexo, uma parcela relevante das ações contra profissionais não termina em condenação. Muitas são julgadas improcedentes justamente porque a perícia não encontrou erro técnico, ou porque o nexo causal não se sustentou. Não existe um único número oficial que resuma isso para todas as profissões, e você deve desconfiar de quem cita percentuais mágicos — mas a lógica jurídica torna a absolvição um desfecho frequente para quem realmente agiu dentro da técnica.

A armadilha: ser absolvido não é o mesmo que sair ileso. Para chegar à improcedência, você precisou atravessar anos de processo, pagar (ou ver alguém pagar) advogado e assistente técnico, comparecer a audiências, produzir provas e conviver com a incerteza. A ação infundada custa quase o mesmo que a ação fundada para ser defendida. Vencer prova que você estava certo; não devolve o tempo, o dinheiro e o desgaste que a defesa consumiu. Guarde esta frase, porque ela é o resumo de tudo: ganhar uma ação sem seguro pode custar quase tanto quanto perder.

A perícia: o coração técnico do processo

Em ações contra profissionais, a perícia costuma ser a prova mais importante — muitas vezes, a que decide o caso. Faz sentido: o juiz não é médico, engenheiro nem dentista, e precisa de um parecer técnico para avaliar se houve erro.

Funciona, em linhas gerais, assim:

  • O juízo nomeia um perito — um profissional imparcial, da área — para examinar o caso e responder a questões técnicas.
  • Cada parte pode indicar um assistente técnico (um perito “do seu lado”) e apresentar quesitos — as perguntas que quer ver respondidas. É aqui que uma defesa bem-feita ganha ou perde: quesitos bem formulados direcionam o laudo para os pontos que interessam à sua tese.
  • O perito produz um laudo; os assistentes técnicos podem apresentar pareceres concordando ou divergindo.

Essa etapa mostra por que a defesa técnica desde o começo importa tanto. Um assistente técnico competente, atuando desde a formulação dos quesitos, pode ser a diferença entre um laudo que reconhece a lisura da sua conduta e um laudo que passa em branco pelos pontos a seu favor. Não é uma despesa que dá para improvisar no meio do caminho.

A conta da perícia

Perícia custa dinheiro. Há honorários periciais (do perito nomeado) e, se você indicar, os honorários do seu assistente técnico. Em regra, adianta os honorários do perito a parte que requereu a prova (ou conforme o juiz determinar); quando há inversão do ônus em relação de consumo, esse encargo pode recair sobre o profissional. São valores que aparecem no meio do processo, muito antes de qualquer sentença — e que, sem seguro, saem do seu fluxo de caixa no momento em que você menos gostaria.

A conta da defesa: o custo que chega antes da sentença

Esta é a parte que quase ninguém antecipa e que mais surpreende quem passa por um processo: defender-se custa caro, e a conta chega em parcelas, ao longo de anos, muito antes de o juiz decidir.

O que compõe essa conta:

  • Honorários do seu advogado — o custo contratual da sua defesa, do início ao fim.
  • Honorários periciais e do assistente técnico — a prova técnica que pode decidir o caso.
  • Custas processuais — as taxas do próprio andamento do processo.
  • Sucumbência — se você perde (total ou parcialmente), pode ser condenado a pagar também os honorários do advogado da outra parte e as custas, além da indenização. E, atenção: se você vence e o autor tem justiça gratuita, muitas vezes você não consegue recuperar dele o que gastou.
  • O custo invisível — o tempo que você deixa de trabalhar para acompanhar o caso, os deslocamentos, as horas que poderiam estar gerando renda.

Some tudo isso e você entende por que a defesa é, para muitos profissionais, o verdadeiro golpe financeiro — maior até do que a condenação em si, que pode nem vir. E note o detalhe cruel da sucumbência: ganhar a ação não devolve o que você pagou ao seu próprio advogado. Os honorários que você contratou para se defender são seus, vitória ou derrota.

É exatamente esse cenário que o seguro de Responsabilidade Civil Profissional foi construído para atravessar. Falaremos disso em detalhe adiante — mas guarde a ideia central: a apólice mais se prova no início e no meio do processo, quando as despesas correm, e não apenas no fim.

O custo que não aparece na planilha

Há uma conta que nenhum orçamento captura e que quem já foi processado descreve com as mesmas palavras: o peso emocional dos anos no meio.

Ser acusado de ter causado um dano a quem você tentava ajudar mexe com a identidade profissional de um jeito difícil de explicar para quem não passou por isso. Na medicina, existe até um termo para o profissional envolvido em um evento adverso: a “segunda vítima”. A insônia, a insegurança que contamina os próximos atendimentos, o receio de que colegas e pacientes fiquem sabendo, a sensação de que uma parte da sua reputação está em julgamento junto com o processo — tudo isso corre em paralelo, mês após mês, enquanto o caso não termina.

O seguro não apaga esse peso. Mas ele muda a sua natureza. Uma coisa é carregar sozinho a angústia somada ao pânico de não saber como vai pagar a defesa e o que acontece com a casa da família se der errado. Outra, muito diferente, é enfrentar o desgaste sabendo que existe uma estrutura técnica e financeira cuidando da parte que você não controla. Tirar o problema do dinheiro da mesa libera energia para cuidar do resto — inclusive de você.

Quanto tempo dura, na prática

Processos de responsabilidade civil raramente são rápidos. Entre a citação e uma decisão final e sem recurso, é comum passarem-se anos. Não para assustar — para planejar. Vale conhecer as fases, porque cada uma tem o seu tempo:

  1. Petição inicial e citação — o processo entra na sua vida.
  2. Audiência de conciliação/mediação — tentativa inicial de acordo, quando designada.
  3. Contestação — a sua defesa.
  4. Réplica — o autor responde à sua defesa.
  5. Saneamento — o juiz organiza o processo, define os pontos controvertidos e defere as provas (aqui costuma entrar a perícia).
  6. Instrução — a fase de produção de provas: perícia, oitiva de testemunhas, depoimentos. É, em regra, a etapa mais longa.
  7. Alegações finais — cada parte apresenta o seu fechamento.
  8. Sentença — a decisão de primeiro grau.
  9. Recursos — apelação ao Tribunal de Justiça e, em hipóteses específicas, recursos aos tribunais superiores. Aqui o tempo pode se estender bastante.
  10. Cumprimento de sentença — se houver condenação, a fase de efetivar o pagamento.

Some as fases e entenda por que a defesa é uma maratona, não uma corrida. E some a isso outro fator que empurra o início desses processos para longe do fato: os prazos para propor a ação. Em regra, a vítima tem alguns anos para processar — variando, conforme a natureza da relação seja regida pelo Código Civil ou pelo Código de Defesa do Consumidor. E há situações em que o prazo não corre enquanto isso, como contra menores absolutamente incapazes: um atendimento na infância pode virar processo muitos anos depois.

Essa distância entre o fato e a reclamação é a característica que define o risco profissional — e é justamente ela que torna o desenho da apólice tão decisivo. Como uma reclamação pode chegar anos depois do trabalho, a data até a qual o seu seguro “olha para trás” (a retroatividade) pode importar mais do que o próprio limite de indenização. Vale entender esse mecanismo com calma no guia sobre como funciona a retroatividade no seguro de RC.

Como o seguro de RC muda cada capítulo

Agora que você viu o processo por dentro, dá para enxergar com precisão onde o seguro de Responsabilidade Civil Profissional atua. Ele não torna você imune a ser processado — nada faz isso. Ele muda quem carrega o custo e o risco de cada etapa.

O gatilho é a reclamação, não a sentença

O RC Profissional no Brasil opera, em regra, à base de reclamações — o chamado regime claims made. O que isso significa na prática: o que aciona a apólice é a reclamação apresentada durante a vigência (a citação, a notificação, o aviso formal de que alguém pretende ser indenizado), sobre um fato posterior à data de retroatividade contratada. Não é preciso esperar o fim do processo. A cobertura entra em movimento quando a reclamação chega — que é exatamente quando as despesas começam.

Essa é a lógica que reorganiza toda a história contada até aqui: os custos de defesa — honorários, perícias, custas, assistente técnico — são, em regra, acionados pela existência da reclamação, e não pelo seu resultado. A apólice custeia a defesa desde o começo, correndo lado a lado com o processo, conforme as condições contratadas.

O que a apólice faz em cada etapa

  • Na citação: o “e agora?” deixa de ser um problema solitário. Você comunica corretor e seguradora, e uma estrutura de defesa é acionada — dentro dos prazos que, sozinho, seriam fáceis de perder.
  • Na conta da defesa: os custos que corroem o seu fluxo de caixa passam a ser suportados pela apólice, dentro do limite e das condições contratadas.
  • Na perícia: a defesa técnica deixa de depender do quanto você pode gastar naquele mês.
  • Nos anos no meio: você tem corretora e seguradora acompanhando o caso, e o peso financeiro sai dos seus ombros.
  • Na sentença: havendo condenação, a indenização devida é paga pela apólice, dentro do limite contratado — poupando o seu patrimônio pessoal, a casa, as economias de uma vida.

Os detalhes que separam duas apólices com o mesmo nome

Aqui mora a parte que a maioria não lê e depois lamenta. Dois seguros de RC podem parecer idênticos e proteger de forma muito diferente. Preste atenção a três pontos:

  • Custos de defesa: dentro ou fora do limite? Em algumas apólices, tudo o que se gasta com defesa consome o limite de indenização — o que significa menos dinheiro disponível para uma eventual condenação. Em outras, os custos de defesa são pagos em acréscimo ao limite. É uma diferença enorme no cenário real.
  • A franquia. Muitas apólices preveem uma participação sua em cada sinistro. Entender como ela funciona evita surpresas — o tema está detalhado no guia sobre como funciona a franquia do seguro.
  • O âmbito e as exclusões. O seguro cobre atos profissionais culposos — não cobre, em regra, dolo (a intenção deliberada de causar dano) nem atos fora do escopo declarado. Ler o que está excluído é tão importante quanto ler o que está coberto.

A comunicação no prazo é o que aciona tudo

Existe uma regra de ouro que, se ignorada, pode fazer a apólice não responder mesmo estando em dia: avisar a seguradora no prazo, e não agir por conta própria.

Nos seguros à base de reclamações, comunicar o sinistro — a reclamação — dentro do prazo previsto é condição para a cobertura funcionar. E há um comportamento típico exigido pelas condições: o segurado, em regra, não pode reconhecer a sua responsabilidade, fazer acordo ou pagar/indenizar a outra parte sem a anuência prévia da seguradora. Fazer isso “para resolver logo” pode custar a cobertura inteira. Por isso, no dia da citação, a ordem é: comunicar antes de agir. O passo a passo de como acionar corretamente está no guia sobre como funciona um sinistro, do aviso à indenização.

Claims made, retroatividade e o “tail”, em uma frase

Para fechar o raciocínio sem simplificar demais: no regime à base de reclamações, você precisa de três coisas alinhadas — uma apólice vigente quando a reclamação chega, uma data de retroatividade anterior ao fato gerador, e, ao encerrar a atividade ou trocar de seguradora, um prazo adicional (o tail, nas modalidades complementar e suplementar) para continuar recebendo reclamações sobre o trabalho passado. Deixar a apólice vencer sem sucessão pode significar não ter quem receba uma reclamação nova, mesmo sobre um atendimento de quando o seguro estava ativo. É por isso que a continuidade da apólice, sem lacunas entre as vigências, importa tanto — e merece atenção especial em toda troca de seguradora.

O detalhe que decide tudo: contratar antes

Há uma cláusula silenciosa nessa história inteira, e ela não está no contrato — está no calendário. O seguro de RC Profissional só protege quem o contratou antes de precisar.

Comprar a apólice depois de receber a citação não adianta. O seguro cobre reclamações que surgem durante a vigência (e fatos anteriores, se você contratou retroatividade), nunca um processo que já bateu à porta. Fatos e circunstâncias que você já conhece — uma complicação recente, uma reclamação que “está no ar”, uma notificação já recebida — normalmente precisam ser declarados na contratação e costumam ficar de fora da nova apólice. É a única compra que você faz torcendo para nunca usar, e que só existe se for feita no dia em que você não precisa dela.

É por isso, também, que profissionais em início de carreira se beneficiam de contratar cedo: começa-se a construir retroatividade desde o primeiro atendimento ou o primeiro projeto assinado, protegendo toda a história profissional dali para a frente. Se essa lógica ainda soa contraintuitiva, vale desarmar as objeções mais comuns no guia sobre os mitos do seguro de RC que custam caro — e entender, no passo a passo de um processo por erro médico, como a teoria vira prática.

Passo a passo: o que fazer no dia em que a citação chega

Se um dia o envelope bater à sua porta, aja com método, não no impulso. Este é o roteiro:

  1. Não entre em pânico — e não ignore. As duas reações extremas são igualmente perigosas. Trate o documento como urgente e real.
  2. Anote a data. O dia em que você foi citado é o marco que pode dar início ao prazo de defesa. Registre.
  3. Não fale com a outra parte. Nada de ligar “para resolver”, pedir desculpas por escrito ou oferecer acordo por conta própria. Qualquer manifestação pode ser usada — e, se você tem seguro, negociar sem a seguradora pode comprometer a cobertura.
  4. Não assine, não reconheça, não pague nada. Reconhecer responsabilidade sem orientação é um dos erros mais graves.
  5. Comunique o corretor e a seguradora imediatamente. Se você tem apólice, este é o gatilho que aciona o custeio da defesa. Separe os dados do seguro e faça o aviso de sinistro no prazo.
  6. Constitua um advogado. Conforme as condições da apólice, a seguradora pode indicar/aprovar o profissional ou aceitar o seu advogado de confiança. O importante é ter defesa técnica desde o primeiro dia.
  7. Reúna a documentação do caso — sem alterá-la. Prontuário, contrato, termo de consentimento, ART/RRT, relatórios, e-mails, mensagens. Jamais edite, complete ou “melhore” um registro depois de saber do processo: alterar prontuário ou documento técnico é falta gravíssima e destrói a sua credibilidade.
  8. Preserve tudo. Guarde cópias, organize a cronologia dos fatos, liste possíveis testemunhas.
  9. Respeite os prazos. Todos eles. No processo, prazo perdido raramente se recupera.
  10. Cuide da sua cabeça. O caso vai durar. Preserve a sua rotina, a sua saúde e a sua rede de apoio — você vai precisar de energia para o percurso.

Esse método vale para qualquer profissão. O que muda de um caso para outro é a técnica da defesa e o tipo de prova — o médico e o dentista vão discutir prontuário e perícia clínica; o advogado, a perda de uma chance e o dever de zelo; o engenheiro, a ART e a boa técnica construtiva; o enfermeiro, o protocolo assistencial. A estrutura do processo é a mesma; a defesa é sob medida.

O que levar deste guia

Ser processado não é sinal de que você é um mau profissional — é um risco inerente a quem assume responsabilidade técnica sobre a vida, o patrimônio ou os direitos de outra pessoa. O processo tem um roteiro previsível: uma citação que dá a largada, um prazo curto para reagir, uma disputa que gira em torno da sua conduta, uma perícia que costuma decidir, uma conta de defesa que chega em parcelas por anos, e uma sentença que pode absolver (a um custo alto) ou condenar (a um custo maior).

A única variável que você controla inteiramente é uma decisão tomada antes de tudo começar: estar ou não protegido no dia em que a citação chegar. Com um seguro de RC bem contratado, os capítulos mais duros dessa história — o custo da defesa, o peso dos anos no meio, a ameaça ao patrimônio — deixam de ser exclusivamente seus.

Se você exerce uma profissão que assume responsabilidade — e assume, senão não estaria lendo até aqui —, vale entender a sua exposição real antes que o envelope chegue. Veja como a proteção se ajusta à sua atividade na página para profissionais e, quando quiser, fale com um especialista da GVM: a conversa é consultiva e sem compromisso, e o melhor momento para tê-la é hoje, num dia comum — não no dia em que a citação chega.

Perguntas frequentes

Dúvidas rápidas sobre o tema

Recebi uma citação. Qual é a primeira coisa que devo fazer?

Não responder por conta própria e não contatar a outra parte para 'resolver'. Comunique imediatamente o corretor e a seguradora (se você tem apólice) e procure um advogado. Nos seguros de RC Profissional, avisar a seguradora no prazo é condição para a cobertura funcionar — é o gatilho que aciona o custeio da defesa.

Quanto tempo eu tenho para apresentar defesa depois da citação?

No procedimento comum, em regra, o prazo de contestação é de 15 dias úteis — mas o marco a partir do qual ele começa a correr varia (por exemplo, a data da audiência de conciliação/mediação, quando há). Prazos processuais costumam ser contados em dias úteis. Como o cálculo tem detalhes técnicos, a orientação é levar a citação a um advogado no mesmo dia, e não deixar para depois. Perder o prazo tem consequência séria.

E se eu ignorar a citação ou perder o prazo de defesa?

Não apresentar defesa no prazo pode levar à revelia, situação em que, em regra, os fatos afirmados pelo autor passam a ser presumidos verdadeiros — o que enfraquece muito a sua posição. Ignorar uma citação nunca faz o processo desaparecer; só o faz avançar sem a sua versão. Trate o documento como urgente no dia em que ele chega.

O seguro paga o advogado desde o começo do processo?

Em regra, sim. Os custos de defesa — honorários, perícias, custas — são acionados pela existência da reclamação, não pelo fim do processo, conforme as condições contratadas. É justamente no início, quando as despesas começam, que a apólice mais se prova.

E se a ação for absurda, sem fundamento nenhum?

Ações infundadas ainda precisam ser defendidas, e defender custa dinheiro e tempo. A cobertura de custos de defesa funciona igual: em regra, paga a defesa independentemente de você ter ou não cometido o erro alegado. Ganhar uma ação sem seguro pode custar quase tanto quanto perder — porque os honorários que você contratou não são devolvidos por ter vencido.

Um processo no conselho de classe (CRM, OAB, CREA, CRO) também está coberto?

Depende do clausulado. A apólice de RC Profissional foi desenhada para a reparação civil (o processo que discute indenização) e para os custos dessa defesa. Alguns produtos oferecem, como cobertura adicional, o custeio de defesa em procedimentos éticos/administrativos perante o conselho de classe. Verifique o âmbito antes de contratar — a GVM orienta sobre o que cada apólice cobre.

Os custos de defesa saem de dentro do limite da apólice?

Varia conforme o produto. Em algumas apólices, os custos de defesa consomem o limite de indenização; em outras, são pagos em acréscimo a ele. Há ainda a franquia, quando prevista. Essa é uma das diferenças mais importantes — e menos lidas — entre dois seguros com o mesmo nome. Leia as condições ou peça à corretora que traduza.

Quem escolhe o advogado, eu ou a seguradora?

Depende das condições contratadas. Em alguns modelos a seguradora indica ou aprova o profissional; em outros, você indica o seu advogado de confiança, com anuência da seguradora. O ponto inegociável é comunicar antes de agir — reconhecer culpa, fazer acordo ou constituir defesa por fora sem avisar a seguradora pode comprometer a cobertura.

Comprar o seguro depois que já fui citado adianta?

Não. O seguro cobre reclamações futuras (e fatos passados dentro da retroatividade contratada), não um processo que já existe. Por isso ele precisa ser contratado antes — quando você ainda não precisa dele.

Quanto tempo dura um processo desses?

Varia muito, mas ações de responsabilidade civil costumam se estender por anos, passando por contestação, perícia, audiências e, eventualmente, recursos. É um tempo em que as despesas se acumulam e a preocupação pesa — dois fardos que a apólice existe para tirar dos seus ombros.

Conteúdo informativo produzido por corretora registrada na SUSEP (nº 222134993); não substitui a leitura das condições gerais da apólice nem orientação jurídica individualizada. Valores e coberturas variam conforme seguradora, perfil e vigência.

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